O dia teimava continuar cinzento como o fumo que desfaz o cigarro em voluptuosas ondulações, que se desenrolam placidamente e ornamentam a melancólica contemplação do mundo. O fumo desaparece dançando, num sereníssimo gradiente entre a existência e a não existência, dissolve-se no imenso ar com a mesma lentidão com que o navio cruza o horizonte, e assim são todos os pensamentos que na viagem do trabalho até casa, eu, absorto, com o rosto apoiado contra a vidraça do comboio, percorro. Não agarro nenhum, deixo-os ir como deixo o fumo dos cigarros que gostava de fumar, mas não tenho. Podia pedir um, mas não sei falar a língua da cidade azul. Sou mais estrangeiro que nunca, mais um, e pela primeira vez sinto vontade de voltar. Penso no dia em que voltarei e justifico o pensamento, culpo a constante inconformidade do desejo, mas deixo-os ir. Chego a casa, cinzento como o dia que se extingue, deito-me na cama de olhar fixo na janela a observar a última luz e sinto o negrume cobrir-me com o gélido manto da solidão. Fecho os olhos em busca de casa.
16.01.25




