Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Creio não haver melhor epitáfio para os dias que já passei na Terra.
Uma constante insatisfação que não se sacia pela conquista do desejado. Este logo será substituído por um outro objeto de desejo, por vezes até contraditório, um anti-desejo, que alimentará uma nova insatisfação. Num movimento perpétuo de chegada e partida.
António lamenta, mas pelo menos conhece a razão.
Percorre pessoas e lugares na esperança que nalgum se encontre. Nessa procura, o malogro em encontrar-se leva-o a partir de novo rumo a novas pessoas e lugares.
Já eu não faço a mínima ideia do que alimenta esta minha insatisfação.
Não creio perseguir uma identidade, tão pouco creio que sejam novas metas a gerar essa força que me impele à mudança. Se desejei uma coisa, também já desejei o seu contrário.
Se isto é algum movimento definido, de onde estou, não consigo percebê-lo.
Talvez me falte distância, para perceber os contornos que desenha.
Bloom sabe que a natureza humana é insaciável, por isso disse certo dia a alguém que o mais avisado seria chegar cansado ao sítio onde se quer envelhecer, caso contrário a força e a impaciência levar-nos-iam a partir novamente.
Talvez seja só isso.
Uma permanente insaciabilidade que me impede estar, apenas, em sossego.
Ortiga, 19 de novembro de 2024
Rodrigo




