Vela

M. olha a pequena chama que dança sobre o pavio. Tão frágil, pensa. 

Não consegue deixar de ver na vela uma metáfora de si próprio: um corpo frágil e efémero que se interpõe entre um sopro de igual condição e o silêncio absoluto. O corpo segura a débil centelha a este mundo até ao inevitável momento contra o qual pouco pode.

O que o surpreende ainda mais é o ecletismo da sua natureza. Trata-se de um objeto que tem tanto de útil como de metafísico. Na escuridão, mostra o caminho até ao quadro elétrico que foi abaixo ou até deus, consoante as necessidades de quem a ela acorre. 

O seu pensamento deriva mais uma vez. A vela talvez seja um dos maiores símbolos de domínio do homem sobre a natureza. Amestrou a sua força destruidora, deste ponto de vista pode ser vista como uma jaula.

A secura dos olhos denunciam o cansaço. Há muito que se perdera na torrente de pensamentos, de onde agora desperta. Dirige um sopro suave para a chama. Observa atentamente a luta. Admira a forma como se agarra a vida, como também ele se agarraria se estivesse naquela posição. Sorri, embora os lábios lhe permaneçam inalterados. Mas mais forte que a admiração é o cansaço e como quem quer por fim ao sofrimento, sopra uma última vez com mais força. 

M. nunca mais esqueceu aquela pequena dançante.