Muitas são as conquistas que a humanidade vem colecionando ao longo da sua jornada existencial. Apresentam-se diante de nós sob diversas formas e feitios, mais ou menos palpáveis, muitas delas, decisivas para chegarmos aqui. Porém nem todas gozam do mesmo reconhecimento. Existem umas mais afamadas, cuja glória devem-na à espetacularidade – a ida à lua ou o avião supersónico, são bons exemplos disso; existem outras realmente notáveis, como são a água canalizada ou a energia elétrica, bem mais fundamentais para a existência humana, contudo banalizadas, apenas na ausência lhes é reconhecido o devido valor; e existem outras ainda, que por serem consideradas demasiado simples ou frívolas – maior parte das vezes dispensáveis – ficam olvidadas no canto das coisas invisíveis, quando às conquistas da humanidade nos referimos.
Um dos maiores logros da humanidade que encaixam nesta categoria é a possibilidade de cagar devagar. As pernas dormentes após uma bela meia hora debruçadas sobre o aclamado trono, foi um luxo bastante dispendioso, tendo sido necessários inúmeros avanços tecnológicos e humanos para se tornarem possíveis. Desde o surgimento de formas de vida que defecam, milhões de anos tiveram de passar para que uma espécie o pudesse fazer durante o tempo que quiser.
Para todos os outros animais, defecar é um ato que deve ser feito com maior eficácia possível, seja fazendo-o com rapidez, seja conjugando-o com outra tarefa, ou até mesmo durante deslocações. Já o ser humano, nas condições ideais, transforma esse momento em puro deleite, onde o alivio é muitas vezes acompanhado por algum passatempo. O que seria do coelhinho se tirasse meia hora da sua vida para fazer cocó? Possivelmente encostado a uma árvore com um tronco de envergadura considerável, já que o abrigo de uma copa é sempre preferível ao céu aberto, e para além disso confere um bom suporte e privacidade ao momento. Ora bem, aí está o nosso coelhinho, apoiado nas suas quatro patas e o cuzinho de pompom ligeiramente arrebitado, largando as bolinhas castanhas. O seu olhar flutua pelo céu, pensa no tempo e nas ervas crocantes que nesse ano povoam os campos e de repente zás! Uma raposa ferra os dentes naquele pescocinho tenro e felpudo, agora manchado de sangue que esguicha vivamente da ferida aberta. Acabou-se o coelhinho.
O primeiro passo foi livrar-se do perigo de se tornar refeição. Cumprido, a humanidade entregou-se à volúpia da evacuação. Veja-se os romanos com as suas latrinas publicas. Fazer cocó, era para eles uma bela oportunidade para a socialização. Filosofia e política eram discutidas por caras suadas que pontuavam o discurso com grunhes de esforço, ao som de orquestrações de peidos. Sublime composição. O mais alto e o mais baixo da produção humana, ao mesmo tempo, no mesmo espaço. Nada do que digo será menos que brilhante, pois como bem podes ver, toda a merda que tenho no corpo sai-me pelo outro canal. Dirá Marcus defendendo a sua posição para a política externa de Roma
Hoje em dia, somos mais resguardados. A cada macaco, o seu galho. A nossa relação com o cocó foi tingida pela timidez. Em certos meios ou para certas pessoas, chega mesmo a ser um tema tabu, deselegante, sem estatuto que o permita entrar nas esferas da conversação – nem precisam de ser as altas – como se a secreção de resíduos sólidos não digeridos fosse um delito moral inadmissível em público. Insólito, dado não ter existido cu neste mundo que não tivesse cagado. Neste campo, o xixi beneficia de maior aceitação. Mas dentro do cubículo, meus amigos, a história é outra. Despimo-nos de todos os filtros e abraçamos com todo o coração tudo o que do lado de lá da porta tanto nos repugna, exaltamos a cada peido que ecoa na porcelana e tanto maior a secreção, maior a aclamação que no final faremos para nós próprios.
Foi imensa a jornada. Superámos predadores, investimos vigorosamente na busca pelo conforto, substituímos os companheiros cagões, por outros mais pacatos – como o clássico jornal ou o seu irmão mais novo telemóvel – tudo para que pudéssemos passar agradáveis jornadas de calças nos tornozelos. Porque fazer cocó, nunca é apenas fazer cocó. Fazer cocó, é também ficar a par do que está a acontecer no mundo, é quebrar recordes ou pôr a correspondência em dia. Fazer cocó é rir, é navegar, para alguns um ritual, para outros uma desculpa para não trabalhar, para muitos a melhor pausa para pensar.
Podíamos apenas sentar-nos, purgar a tripa e seguir com a vida em frente. Mas também podíamos comer maçãs apenas e passar os dias deitados à espera das noites e as noites à espera dos dias. Mas não é esse o desígnio da humanidade. Esse revela-se na energia dedicada às pequenas coisas, aquelas que são totalmente dispensáveis, e existem apenas porque tornam esta passagem um pouco mais agradável.
As grandes conquistas da humanidade contam-nos a sua história, as minúsculas falam-nos dela.

imagem: Reprodução/Flickr/Antonio Cambronero
Reichenaux an der Rax, 13 de julho de 2024
Rodrigo




